F Ildokerigma.com: novembro 2010
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Irmãos esse blog foi criado para vivenciarmos a cada dia ou a cada acesso uma visão de deus em nossas vidas e em nosso coração, por que kerygma ? Porque kerygma e uma palavra de origem grega que quer dizer ,primeiro anuncio de Jesus vivo ;morto e ressuscitado,também significa.proclamar ,gritar ,anunciar Jesus as pessoas ,principalmente quem ainda não ouviu falar de Jesus, como já disse kerygma e o primeiro anuncio de Jesus cristo,as pessoas, levar as pessoas a encontrarem Jesus em suas vidas. Amados irmãos nos tempos de hoje são muitos os desafios para anunciar o kerygma as pessoas. Muito mais do que ha. 2000 anos atrás ,porque a modernidade tem levado as pessoas a uma vida descartável e pratica no sentido de ser o mais e simples e rápido possível, portanto amados e amadas em cristo aqui vc vai encontrar uma escada q vai ti ajudar a chegar a Jesus em teu dia dia,degraus q iras semanalmente subir em tua vida espiritual deus te abençoe

DISCURSO DO PAPA BENTO XVI
AO SENHOR JEAN-PIERRE HAMULI MUPENDA
NOVO EMBAIXADOR DA REPÚBLICA DEMOCRÁTICA
DO CONGO POR OCASIÃO DA APRESENTAÇÃO
DAS CARTAS CREDENCIAIS

Quinta-feira, 29 de Abril de 2010

Senhor Embaixador!

É com grande prazer que recebo Vossa Excelência por ocasião da apresentação das Cartas que o acreditam como Embaixador extraordinário e plenipotenciário da República Democrática do Congo junto da Santa Sé. Agradeço-lhe as amáveis palavras, mediante as quais me transmitiu a homenagem respeitosa do Presidente da República, Sua Excelência o Senhor Jo-seph Kabila Kabange, e do povo congolês. Tive a ocasião de me encontrar com o seu Presidente em Junho de 2008. Ficar-lhe-ia grato se tivesse a amabilidade de lhe transmitir os votos que formulo pela sua pessoa e pelo cumprimento da sua tarefa ao serviço da Nação. Deus o guie nos esforços pela consecução da paz, garantia de uma existência digna e de um progresso integral. Saúdo também cordialmente os diferentes Responsáveis e todos os habitantes do seu país.

A sua presença na chefia da Embaixada congolesa, após longos anos de vacância, manifesta o desejo do Chefe do Estado e do Governo de fortalecer as relações com a Santa Sé e por isto lhes agradeço. Faço notar também que esta decisão é tomada no ano do cinquentenário da independência da sua pátria. Que este jubileu seja para a Nação a ocasião de recomeçar com novas bases.

O seu país conheceu durante estes mesmos anos momentos particularmente difíceis e trágicos. A violência abateu-se, cega e impiedosa, sobre uma ampla camada da população, reprimindo-a sob o seu jugo brutal e insuportável, semeando ruínas e mortes. Penso de modo particular nas mulheres, nos jovens e nas crianças, cuja dignidade foi longamente espezinhada pela violação dos seus direitos. Gostaria de lhes expressar a minha solicitude e garantir-lhes a minha oração. A própria Igreja católica foi ferida em numerosos dos seus membros e estruturas. Ela deseja favorecer a cura interior e a fraternidade. A Conferência Episcopal falou amplamente sobre a problemática na sua Mensagem de Junho passado. Portanto seria oportuno agora empregar todos os meios políticos e humanos para pôr fim ao sofrimento. Também seria bom reparar e fazer justiça, como convidam as palavras justiça e paz inscritas no mote nacional. Os compromissos assumidos em Goma em 2008 e a aplicação dos acordos internacionais, mais particularmente o Pacto sobre a segurança, a estabilidade e o desenvolvimento da Região dos Grandes Lagos, certamente são necessários, mas é ainda mais urgente trabalhar pelas condições preliminares da sua aplicação. Ela só poderá realizar-se reconstruindo pouco a pouco o tecido social tão gravemente ferido, encorajando a primeira sociedade natural que é a família, e consolidando as relações interpessoais entre congoleses, fundadas numa educação integral, fonte de paz e de justiça. Senhor Embaixador, a Igreja católica deseja continuar a dar a sua contribuição para esta nobre tarefa através de todas as estruturas de que dispõe, graças à sua tradição espiritual, educativa e de saúde.

Convido os poderes públicos a que nada negligenciem para pôr fim à situação de guerra que, infelizmente, ainda persiste em certas províncias do país, e a dedicar-se à reconstrução humana e social da nação no respeito dos direitos humanos fundamentais. A paz não é unicamente a ausência de conflitos, ela é também um dom e uma tarefa que compromete os cidadãos e o Estado. A Igreja tem a convicção de que ela só pode ser realizada "no respeito da "gramática" inscrita no coração do homem pelo seu divino Criador", ou seja, numa resposta humana em harmonia com o plano divino. "Esta "gramática", isto é, o conjunto das regras do agir individual e das relações recíprocas entre as pessoas, segundo a justiça e a solidariedade, está inscrita nas consciências, onde se reflecte o sábio projecto de Deus" (cf. Mensagem para o Dia Mundial da Paz, 2007, n. 3). Faço apelo à Comunidade internacional, envolvida em diversos níveis nos conflitos sucessivos que a sua nação viveu, a mobilizar-se a fim de contribuir eficazmente para restabelecer na República Democrática do Congo a paz e a legalidade.

Após tantos anos de sofrimentos, Excelência, o seu país precisa de se comprometer resolutamente no caminho da reconciliação nacional. Os Bispos do Congo proclamaram este ano de aniversário da Nação, um ano de graça, de renovação, de alegria e de reconciliação para construir um Congo solidário, próspero e unido. Um dos melhores meios para obter estas finalidades é a promoção da educação das jovens gerações. O espírito de reconciliação e de paz, nascido na família, afirma-se e expande-se na escola e na universidade. Os congoleses desejam uma boa educação para os seus filhos, mas o peso do financiamento directo por parte das famílias é grande e até insuportável para muitos. Tenho a certeza de que uma justa solução poderá ser encontrada. Ajudando economicamente os pais e garantindo o financiamento regular dos educadores, o Estado fará um investimento que será proveitoso para todos. É fundamental que as crianças e os jovens sejam educados com paciência e tenacidade, sobretudo quantos foram privados de instrução e treinados para matar. Seria bom não só inculcar-lhes um conhecimento que os ajudasse na sua futura vida adulta e profissional, mas é preciso proporcionar-lhes sólidas bases morais e espirituais que os ajudem a rejeitar a tentação da violência e do ressentimento para escolher o que é justo e verdadeiro. Através das suas estruturas educativas e segundo as suas possibilidades, a Igreja poderá ajudar a completar as do Estado.

As importantes riquezas naturais com as quais Deus dotou a vossa terra e que infelizmente se tornaram uma fonte de avidez e de lucro desproporcionado para alguns dentro e fora do seu país, permitem amplamente, graças a uma justa repartição dos rendimentos, ajudar a população a sair da pobreza e a providenciar à sua segurança alimentar e da saúde. As famílias congolesas e a educação dos jovens serão as primeiras beneficiárias. Este dever de justiça promovido pelo Estado consolidará a reconciliação e a paz nacional, e permitirá que a população possa gozar de uma vida serena, base necessária para a prosperidade.

Por seu intermédio, desejo igualmente dirigir votos calorosos aos membros da comunidade católica do seu país, mais particularmente aos Bispos, convidando-os a ser testemunhas generosas do amor de Deus e a contribuir para a edificação de uma nação unida e fraterna na qual cada um se sinta plenamente amado e respeitado.

No momento em que inicia a sua missão, apresento-lhe, Senhor Embaixador, os meus melhores votos pela nobre tarefa que o espera, garantindo-lhe que encontrará sempre um acolhimento atento e uma compreensão cordial junto dos meus colaboradores.

Sobre Vossa Excelência, a sua família, o povo congolês e os seus Dirigentes, invoco de coração a abundância das Bênçãos divinas.

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DISCURSO DO PAPA BENTO XVI
AOS BISPOS DA GÂMBIA, DA SERRA LEOA
E DA LIBÉRIA EM VISITA
«AD LIMINA APOSTOLORUM»

Quinta-feira, 29 de Abril de 2010



Dilectos Irmãos Bispos!

Estou feliz por vos dar as boas-vindas, Bispos da Libéria, da Gâmbia e da Serra Leoa, por ocasião da vossa visita ad limina aos túmulos dos Apóstolos Pedro e Paulo. Estou grato pelos sentimentos de comunhão e de afecto manifestados em vosso nome por D. Koroma, e peço-vos que transmitais as minhas calorosas saudações e encorajamento aos vossos amados povos, enquanto eles se esforçam por levar uma vida digna da vocação que receberam (cf. Ef 4, 1).

A segunda Assembleia Especial para a África do Sínodo dos Bispos foi uma rica experiência de comunhão e uma circunstância providencial para renovar o vosso próprio ministério episcopal e para reflectir sobre a sua tarefa essencial, nomeadamente, "para ajudar o Povo de Deus a reservar à palavra da revelação a obediência da fé e a abraçar plenamente os ensinamentos de Cristo" (Pastores gregis, 31). É com prazer que vejo, nos vossos relatórios quinquenais, que enquanto vos dedicais à administração das vossas respectivas dioceses, esforçais-vos pessoalmente por anunciar o Evangelho nas confirmações, nas vossas visitas às paróquias, por ocasião dos vossos encontros com grupos de sacerdotes, de religiosos ou de fiéis leigos, assim como nas vossas cartas pastorais. Através do vosso ensinamento, o Senhor preserva os vossos povos do mal, da ignorância e da superstição, transformando-os em filhos do seu Reino. Procurai construir comunidades vibrantes e expansivas, feitas de homens e de mulheres fortes na própria fé, contemplativos e jubilosos na liturgia, e bem instruídos sobre "o modo como deveis proceder para agradar a Deus" (1 Ts 4, 1). Num ambiente caracterizado pelo divórcio e pela poligamia, promovei a unidade e o bem-estar da família cristã, edificada no sacramento do matrimónio. Iniciativas e associações dedicadas à santificação desta comunidade de base merecem o vosso total apoio. Continuai a promover a dignidade das mulheres no contexto dos direitos humanos e a defender os vossos povos contra as tentativas de divulgar uma mentalidade antinatalista, dissimulada sob forma de progresso cultural (cf. Caritas in veritate, 28). A vossa missão exige também que presteis atenção ao discernimento e preparação adequados das vocações e à formação permanente dos sacerdotes, que são os vossos mais estreitos colaboradores na obra de evangelização. Continuai a orientá-los com a palavra e o exemplo, para que sejam homens de oração, sólidos e clarividentes no seu ensino, maduros e respeitosos nos seus relacionamentos com os outros, fiéis aos seus próprios compromissos espirituais e vigorosos na compaixão para com todos os que se encontram em necessidade. Do mesmo modo, não hesiteis em convidar os missionários de outros países a participar na boa obra que se está a levar a cabo por parte do clero, dos religiosos e dos catequistas.

Nos vossos países tem-se a Igreja em grande consideração, devido ao seu contributo para o bem da sociedade, de forma especial nos campos da educação, do desenvolvimento e da assistência à saúde, oferecido a todos sem qualquer distinção. Esta contribuição descreve bem a vitalidade da caridade cristã, aquele legado divino transmitido à Igreja universal por parte do seu fundador (cf. Caritas in veritate, 27). Aprecio de maneira especial a assistência que vós ofereceis aos refugiados e imigrantes, e exorto-vos a procurar, na medida do possível, a cooperação pastoral da parte dos seus países de origem. A luta contra a pobreza deve ser enfrentada com respeito pela dignidade de todas as pessoas interessadas, encorajando-as a ser protagonistas do seu desenvolvimento integral. Pode-se realizar um grande bem através de compromissos comunitários em pequena escala e mediante iniciativas microeconómicas ao serviço das famílias. No desenvolvimento e no apoio a tais estratégias, uma melhor educação será sempre um factor determinante. Por isso, encorajo-vos a continuar a oferecer programas escolares que preparem e motivem as novas gerações a tornar-se cidadãos responsáveis, socialmente activos para o bem das suas comunidades e dos seus países. Encorajais, justamente, as pessoas que ocupam posições de autoridade, a indicar o caminho na luta contra a corrupção, chamando a atenção para a gravidade e a injustiça de tais pecados. A este propósito, a formação espiritual e moral de leigos e leigas para funções de liderança, mediante cursos especializados na Doutrina Social da Igreja, constitui uma importante contribuição para o bem comum.

Elogio-vos pela vossa atenção ao grande dom que é a paz. Oro a fim de que o processo de reconciliação na justiça e na verdade, que justamente tendes incentivado nessa região, possa produzir um respeito duradouro por todos os direitos humanos, concedidos por Deus, e prevenir as tendências à retaliação e à vingança. No vosso serviço à paz continuai a promover o diálogo com as demais religiões, especialmente com o islão, de maneira a fomentar as boas relações já existentes e evitar qualquer forma de intolerância, injustiça ou opressão, prejudiciais para a promoção da confiança mútua. O trabalho conjunto em defesa da vida e na luta contra a doença e a subalimentação não deixará de promover a compreensão, o respeito e a aceitação. Acima de tudo, um clima de diálogo e de comunhão deve caracterizar a Igreja local. Mediante o vosso exemplo, orientai os vossos sacerdotes, religiosos, religiosas e fiéis leigos, a fim de que cresçam no entendimento e na cooperação, na escuta recíproca e na partilha das iniciativas. Como sinal e instrumento da única Família de Deus, a Igreja tem o dever de dar um testemunho clarividente do amor de Jesus, nosso Senhor e Salvador, que vá além das fronteiras étnicas e inclua todos os homens e mulheres.

Prezados Irmãos Bispos, sei que encontrais inspiração e encorajamento nas palavras que Cristo Ressuscitado dirigiu aos seus Apóstolos: "A paz esteja convosco! Assim como o Pai me enviou a mim, também Eu vos envio a vós" (Jo 20, 21). Quando voltardes para casa, para dar continuidade á vossa missão de sucessores dos Apóstolos, peço-vos que transmitais os meus carinhosos e orantes bons votos aos vossos presbíteros, aos religiosos, às religiosas, aos catequistas e a todos os vossos queridos povos. A cada um de vós, bem como àqueles que foram confiados aos vossos cuidados pastorais, concedo do íntimo do coração a minha Bênção Apostólica.



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DISCURSO DO PAPA BENTO XVI
NO FINAL DO CONCERTO OFERECIDO
PELO PRESIDENTE DA REPÚBLICA ITALIANA
NO QUINTO ANIVERSÁRIO DE PONTIFICADO

Sala Paulo VI
Quinta-feira, 29 de Abril de 2010

(Vídeo)



Senhor Presidente da República
Senhores Cardeais
Ilustres Ministros e Autoridades
Venerados Irmãos no Episcopado
e no presbiterado
Gentis Senhores e Senhoras!

Mais uma vez o Presidente da República Italiana, Ilustre Giorgio Napolitano, com a máxima cortesia, quis oferecer a todos nós a possibilidade de ouvir óptima música por ocasião do aniversário de início do meu Pontificado. Ao saudá-lo com deferência, Senhor Presidente, juntamente com a sua gentil esposa, desejo expressar-lhe o meu sentido agradecimento pela homenagem deveras agradável deste concerto e pelas cordiais palavras que Vossa Excelência me dirigiu. Neste amável gesto vejo também mais um sinal de afecto que o povo italiano sente em relação ao Papa, afecto que foi tão fervoroso em Santa Catarina de Sena, Padroeira da Itália, da qual hoje se celebra a festa. Sinto-me feliz por saudar as outras Autoridades do Estado italiano, os Senhores Embaixadores, as diversas Personalidades e todos vós que participastes deste momento de alto valor cultural e musical.

Desejo agradecer a quantos cooperaram generosamente para a realização deste evento, sobretudo os Dirigentes da Fundação Escola de Música de Fiesole, da qual faz significativamente parte a Orquestra Juvenil Italiana, validamente dirigida pelo maestro Nicola Paszkowski. Na certeza de interpretar os sentimentos de todos os presentes, dirijo um sincero apreço aos membros da orquestra, que executaram com habilidade e eficiência trechos empenhativos do compositor milanês Giovanni Battista Sammartini, de Wolfgang Amadeus Mozart e de Ludwig van Beethoven.
Tivemos a alegria de ouvir esta tarde jovens concertistas alunos da Escola musical de Fiesole, fundada por Piero Farulli, que ao longo dos anos se afirmou como excelente centro nacional de formação orquestral, oferecendo a numerosas crianças, adolescentes, jovens e adultos a possibilidade de realizar um qualificado percurso formativo destinado à preparação de músicos para as melhores orquestras italianas e europeias. O estudo da música assume um alto valor no processo educativo da pessoa, porque produz efeitos positivos no desenvolvimento do indivíduo, favorecendo o seu harmonioso crescimento humano e espiritual. Sabemos quanto é comummente reconhecido o valor formativo da música nas suas implicações de natureza expressiva, criativa, relacional, social e cultural.

Aliás, a experiência mais que tricenal da Escola de Música de Fiesole assume uma particular relevância também perante a realidade quotidiana que nos diz como não seja fácil educar. De facto, no actual contexto social cada obra de educação parece tornar-se cada vez mais árdua e problemática: muitas vezes entre pais e professores fala-se das dificuldades que se encontram em transmitir às novas gerações os valores basilares da existência e de um comportamento recto. Esta situação problemática envolve quer a escola quer a família, assim como as várias agências que trabalham em âmbito formativo.

As actuais condições da sociedade exigem um extraordinário compromisso educativo a favor das novas gerações. Os jovens, mesmo se vivem em contextos diversos, têm em comum a sensibilidade em relação aos grandes ideais da vida, mas encontram muitas dificuldades em vivê-los. Não podemos ignorar as suas necessidades e expectativas, nem sequer os obstáculos ou as ameaças que encontram. Eles sentem a exigência de se aproximarem dos valores autênticos como a centralidade da pessoa, a dignidade humana, a paz e a justiça, a tolerância e a solidariedade. Procuram também, de modos por vezes confusos e contraditórios, a espiritualidade e a transcendência, para encontrar equilíbrio e harmonia. A este propósito, apraz-me observar que precisamente a música é capaz de abrir as mentes e os corações à dimensão do espírito e conduz as pessoas a levantar o olhar para o Alto, a abrir-se ao Bem e ao Belo absolutos, que têm a nascente última em Deus. A alegria do canto e da música são também um convite constante para os crentes e para todos os homens de boa vontade a empenhar-se para dar à humanidade um futuro rico de esperança. Além disso, a experiência de tocar numa orquestra acrescenta também a dimensão colectiva: as provas contínuas guiadas com paciência; o exercício da escuta dos outros músicos; o compromisso de não tocar "sozinhos", mas de fazer com que as diversas "cores orquestrais" – mesmo mantendo as próprias características – se fundem juntas; a busca comum da melhor expressão, tudo isto constitui uma "palestra" formidável, não só a nível artístico e profissional, mas sob o perfil humano global.

Queridos amigos, faço votos de que a grandeza e a beleza dos trechos musicais magistralmente executados esta tarde possam dar a todos nova e contínua inspiração a fim de tender cada vez mais para metas mais altas na vida pessoal e social. Renovo ao Senhor Presidente da República Italiana, aos organizadores e a todos os presentes a expressão da minha sincera gratidão por esta apreciada homenagem! Recordai-me nas vossas orações, para que iniciando o sexto ano do meu Pontificado, possa cumprir sempre o meu Ministério segundo a vontade do Senhor. Ele, que é a nossa força e a nossa paz, abençoe todos vós e as vossas famílias.



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CERIMÓNIA DE BOAS-VINDAS

DISCURSO DO PAPA BENTO XVI

Aeroporto Internacional de Malta - Luqa
Sábado, 17 de Abril de 2010

(Vídeo)



Senhor Presidente
Venerados Irmãos no Episcopado
Distintas Autoridades
Senhoras e Senhores!

Sinto-me feliz por estar entre vós.

É para mim motivo de alegria estar hoje aqui em Malta convosco. Venho como peregrino para adorar o Senhor e louvá-lo pelas maravilhas que aqui realizou. Venho também como Sucessor de São Pedro para vos confirmar na fé (cf. Lc 22, 32) e unir-me a vós na oração ao único Deus vivo e verdadeiro, em companhia de todos os Santos, inclusive o grande Apóstolo de Malta, São Paulo. Mesmo se a minha visita será breve, rezo para que ela dê muitos frutos.

Senhor Presidente, estou-lhe grato pelas palavras gentis com as quais me deu as boas-vindas em seu nome e em nome do povo maltês. Agradeço-lhe o convite e o difícil trabalho que Vossa Excelência e o Governo realizaram para preparar a minha visita. Agradeço ao Primeiro-Ministro, às Autoridades civis e militares, ao Corpo Diplomático e a cada um de vós aqui reunidos para honrar esta circunstância mediante a vossa presença e as vossas cordiais boas-vindas.

Saúdo de modo especial o arcebispo Paulo Cremona, o bispo Mario Grech e o auxiliar Annetto Depasquale, assim como todos os demais bispos presentes. Ao saudar a vós, desejo expressar o meu afecto aos sacerdotes, aos diáconos, aos religiosos e às religiosas e a todos os fiéis leigos confiados aos vossos cuidados pastorais.

A ocasião da minha visita a estas ilhas é o 1950º aniversário do naufrágio de São Paulo nas praias da ilha de Malta. São Lucas descreve este acontecimento nos Actos dos Apóstolos, e foi da sua narração que escolhestes o tema da visita de hoje: "Devemos encalhar numa ilha" (Act 27, 26). Alguém poderia considerar a chegada de São Paulo a Malta, através de um acontecimento humanamente não calculado, como um simples imprevisto da história. Contudo, os olhos da fé permitem-nos reconhecer nele a obra da Providencia Divina.

Na realidade, Malta foi uma encruzilhada de muitos dos grandes acontecimentos e dos intercâmbios culturais na história europeia e mediterrânea, até aos nossos dias. Estas ilhas desempenharam um papel-chave no desenvolvimento político, religioso e cultural da Europa, do Próximo Oriente e do Norte da África. Portanto, segundo os arcanos desígnios de Deus, o Evangelho foi trazido a estas terras por São Paulo e pelos primeiros seguidores de Cristo. A sua obra missionária deu muitos frutos ao longo dos séculos, contribuindo de inúmeras formas para plasmar a rica e nobre cultura de Malta.

Em relação à sua posição geográfica, estas ilhas foram de grande importância estratégica em mais de uma ocasião, inclusive em tempos recentes: a "Georg Cross" colocada na bandeira nacional oferece um testemunho orgulhoso da grande coragem do vosso povo durante os dias sombrios da última guerra mundial. Do mesmo modo, as fortificações que sobressaem de modo tão proeminente na arquitectura da ilha falam de lutas precedentes, quando Malta contribuiu muitíssimo para a defesa da cristandade quer por terra quer por mar. Vós continuais a desempenhar um válido papel nos debates hodiernos sobre a identidade, a cultura e as políticas europeias. Ao mesmo tempo, estou feliz por realçar o compromisso do Governo nos projectos humanitários de amplo alcance, sobretudo em África. É profundamente desejável que isto possa servir para promover o bem-estar dos menos afortunados de vós, como expressão de genuína caridade crista.

Na realidade, Malta tem muito para oferecer em diversos campos, como a tolerância, a reciprocidade, a imigração e outras questões cruciais para o futuro deste Continente. A vossa Nação deveria continuar a defender a indissolubilidade do matrimónio como instituição natural e sacramental, assim como a verdadeira natureza da família, como já está a fazer em relação à sacralidade da vida humana desde a concepção até à morte natural, e o verdadeiro respeito que se deve ter em relação à liberdade religiosa segundo modalidades que levem a um autentico desenvolvimento integral quer dos indivíduos quer da sociedade.

Malta goza de vínculos estreitos com o Próximo Oriente, não só em termos culturais e religiosos, mas também linguísticos. Permiti que eu vos encoraje a colocar este conjunto de habilidades e de pontos de força em benefício de um seu maior uso, para poder servir de ponte na compreensão entre os povos, as culturas e as religiões presentes no Mediterrâneo. Muito deve ainda ser feito para construir relações de confiança genuína e de diálogo proveitoso, e Malta encontra-se numa boa posição para estender a mão da amizade aos seus vizinhos a Norte e a Sul, a Este e a Oeste.

O povo maltês, iluminado durante quase dois milénios pelos ensinamentos do Evangelho e continuamente enrobustecido pelas próprias raízes cristãs, sente-se justamente orgulhoso do papel indispensável que a fé católica desempenhou no desenvolvimento da própria Nação. A beleza da nossa fé é expressa aqui de vários modos complementares, sendo um deles as vidas de santidade que levaram os malteses a oferecerem-se a si mesmos pelo bem dos outros. Entre eles devemos incluir Dun Gorg Preca, que tive a alegria de canonizar há três anos (3 de Junho de 2007). Convido todos vós a invocar a sua intercessão para que esta minha visita pastoral entre vós de muitos frutos espirituais.

Espero rezar convosco durante o tempo que transcorrerei em Malta e gostaria, como pai e irmão, de vos garantir o meu afecto em relação a vós, assim como o meu desejo de partilhar este tempo na fé e na amizade. Com estes pensamentos, confio todos vós à protecção de Nossa Senhora de Ta' Pinu e do vosso pai na fé, o grande Apóstolo Paulo.

Deus abençoe todo o povo de Malta e de Gozo.

DISCURSO DO PAPA BENTO XVI
AOS MEMBROS DA PONTIFÍCIA ACADEMIA
DAS CIÊNCIAS SOCIAIS

Sexta-feira, 30 de Abril de 2010



Estimados membros da Academia!

É-me grato saudar-vos no início da vossa décima sexta sessão plenária, dedicada a uma análise da crise económica global, à luz dos princípios éticos contidos na doutrina social da Igreja. Agradeço à vossa presidente, Professora Mary Ann Glendon, as suas amáveis palavras de saudação, enquanto lhe transmito os meus sinceros bons votos pela fecundidade das vossas deliberações.

Como sabemos, a crise financeira mundial demonstrou a fragilidade do actual sistema económico e das instituições que lhe estão vinculadas. Demonstrou inclusive o equívoco da convicção de que o mercado é capaz de se regular sozinho, separadamente da intervenção pública e sem o apoio dos critérios morais interiorizados. Esta convicção está alicerçada numa noção depauperada da vida económica, como uma espécie de mecanismo que se autocalibra, orientado pelo interesse próprio e pela busca do lucro. Como tal, ignora a natureza essencialmente ética da economia como uma actividade de e para os seres humanos. Em vez de ser uma espiral de produção e de consumo, em vista de necessidades humanas definidas de forma limitada, a vida económica deveria ser vista oportunamente como um exercício da responsabilidade humana, orientado de maneira intrínseca para a promoção da dignidade da pessoa, para a busca do bem comum e do desenvolvimento integral político, cultural e espiritual dos indivíduos, das famílias e das sociedades. Um apreço por esta dimensão mais plenamente humana exige, em contrapartida, precisamente o tipo de investigação e de reflexão interdisciplinar que agora a presente sessão da Academia empreendeu.

Na minha Carta Encíclica Caritas in veritate, observei que "a crise actual obriga-nos a projectar de novo o nosso caminho, a impor-nos regras novas e a encontrar novas formas de empenhamento" (n. 21). Naturalmente, projectar de novo o caminho significa também ter em consideração os padrões compreensivos e objectivos mediante os quais julgar as estruturas, as instituições e as decisões concretas que guiam e orientam a vida económica. Fundamentada na sua fé em Deus Criador, a Igreja afirma a existência de uma lei natural universal, que é o derradeiro manancial de tais critérios (cf. ibid., n. 59). No entanto, ela está igualmente convencida de que os princípios desta ordem ética, inscrita na própria criação, são acessíveis à razão humana e, como tais, devem ser adoptados como fundamento para as escolhas práticas. Como parte da grande herança da sabedoria humana, a lei moral natural, que a Igreja assimilou, purificou e desenvolveu à luz da revelação cristã, serve como farol para orientar os esforços dos indivíduos e das comunidades para buscar o bem e evitar o mal, enquanto dirige o seu compromisso em prol da edificação de uma sociedade autenticamente justa e humana.

Entre os princípios indispensáveis que plasmam uma semelhante abordagem ética integral da vida económica, devem estar a promoção do bem comum, alicerçada no respeito pela dignidade da pessoa humana e reconhecida como finalidade primária dos sistemas de produção e de comércio, assim como das instituições políticas e do bem-estar social. Nos nossos dias, a preocupação pelo bem comum tem adquirido uma dimensão mais acentuadamente global. E torna-se também cada vez mais evidente que o bem comum inclui a responsabilidade pelas gerações vindouras; por conseguinte, a solidariedade intergeracional deve ser reconhecida como o critério ético fundamental para julgar qualquer sistema social. Estas realidades indicam a urgência de fortalecer os procedimentos governamentais da economia global, todavia com o devido respeito pelo princípio de subsidiariedade. Mas no fim, todas as decisões e políticas económicas devem ser orientadas para a "caridade na verdade", uma vez que a verdade preserva e veicula o poder libertador da caridade nos acontecimentos e nas estruturas humanas, sempre contingentes. Pois "sem verdade, sem confiança e sem amor pelo que é verdadeiro, não há consciência nem responsabilidade social, e a actividade social acaba à mercê de interesses privados e lógicas de poder, com efeitos desagregadores na sociedade" (Caritas in veritate, 5).

Dilectos amigos, com estas considerações exprimo mais uma vez a minha convicção de que esta sessão plenária contribuirá para um discernimento mais profundo dos sérios desafios sociais e económicos que o nosso mundo deve enfrentar, e ajudará a indicar o caminho em frente para responder a tais desafios num espírito de sabedoria, justiça e humanidade autêntica. Asseguro-vos mais uma vez as minhas preces por esta obra importante, e sobre vós e os vossos entes queridos, invoco cordialmente as Bênçãos divinas da alegria e da paz.



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ENTREVISTA CONCEDIDA PELO SANTO PADRE
AOS JORNALISTAS DURANTE O VOO PARA MALTA

Voo Papal
Sábado, 17 de Abril de 2010

Queridos amigos, boa tarde! Desejemo-nos boa viagem, sem esta nuvem escura que está em cima da Europa.

Então, qual a razão desta viagem a Malta? Os motivos são numerosos.

O primeiro é São Paulo. Terminou o Ano paulino da Igreja universal, mas Malta festeja 1950 anos do naufrágio e esta é para mim uma ocasião para realçar mais uma vez a figura do Apóstolo das nações, com a sua mensagem importante precisamente também hoje. Penso que se possa sintetizar o essencial da sua viagem com as palavras que ele mesmo resumiu no final da carta aos Gálatas: fé activa na caridade.

São estas as coisas importantes hoje: a fé, a relação com Deus, que se transforma depois em caridade. Mas penso também que o motivo do naufrágio fala por nós. Do naufrágio, Malta obteve a sorte de ter a fé; assim podemos pensar também nós que os naufrágios da vida podem constituir o projecto de Deus para nós e podem também ser úteis para novos inícios na nossa vida.

O segundo motivo: é para mim um prazer viver no meio de uma Igreja vivaz como a de Malta, que é fecunda nas vocações também hoje, cheia de fé, no nosso tempo, e que responde aos desafios do nosso tempo. Sei que Malta ama Cristo e ama a sua Igreja que é o seu Corpo e sabe que, mesmo se este Corpo está ferido pelos nossos pecados, contudo o Senhor ama esta Igreja e o seu Evangelho é a verdadeira força que purifica e cura.

O terceiro motivo: Malta é o ponto onde as correntes dos prófugos chegam da África e batem à porta da Europa. Este é um grande problema do nosso tempo, e, naturalmente, não pode ser resolvido pela ilha de Malta. Todos nós devemos responder a este desafio, trabalhar para que todos possam, na sua terra, viver uma vida digna e por outro lado fazer o possível para que estes prófugos encontrem, onde chegam, não obstante tudo, um espaço de vida digna. Uma resposta a um grande desafio do nosso tempo: Malta recorda-nos estes problemas e também que é precisamente a fé a força que dá caridade, e por conseguinte, também a fantasia para responder bem a estes desafios. Obrigado.

VIAGEM APOSTÓLICA A MALTA
POR OCASIÃO DO 1950º ANIVERSÁRIO
DO NAUFRÁGIO DE SÃO PAULO
(17-18 DE ABRIL DE 2010)

SANTA MISSA

HOMILIA DO PAPA BENTO XVI

Praça "dei Granai" - Floriana
Domingo, 18 de Abril de 2010

(Vídeo)



Estimados irmãos e irmãs
em Jesus Cristo
Meus queridos filhos e filhas!

Sinto-me muito feliz por estar aqui hoje com todos vós, diante da linda igreja de São Públio para celebrar o grande mistério do amor de Deus que se tornou perfeito na Sagrada Eucaristia. Neste tempo, a alegria do período pascal enche os nossos corações porque estamos a celebrar a vitória de Cristo, a vitória da vida sobre o pecado e sobre a morte. É uma alegria que transforma as nossas vidas e nos cumula de esperança no cumprimento das promessas de Deus. Cristo ressuscitou, aleluia!

Saúdo o Presidente da República e a Senhora Abela, as Autoridades civis desta amada Nação e todo o povo de Malta e Gozo. Agradeço ao arcebispo Cremona as suas amáveis palavras e saúdo também o bispo Grech e o bispo Depasquale, o arcebispo Mercieca, o bispo Cauchi e os demais bispos e sacerdotes presentes, assim como os fiéis cristãos da Igreja que está em Malta e em Gozo. Desde a minha chegada, ontem à tarde, senti o mesmo acolhimento caloroso que os vossos antepassados reservaram ao Apóstolo Paulo no ano 60.

Muitos viajantes desembarcaram aqui ao longo da vossa história. A riqueza e a variedade da cultura maltesa é um sinal de que o vosso povo obteve grande benefício do intercâmbio de dons e hospitalidade com os viajantes vindos do mar. E é significativo que vós soubestes exercer o discernimento, reconhecendo o melhor daquilo que eles tinham para oferecer.

Exorto-vos a continuar a fazer assim. Nem tudo aquilo que o mundo propõe hoje vale a pena ser acolhido pelos Malteses. Muitas vozes procuram persuadir-nos a deixar de lado a nossa fé em Deus e na sua Igreja e a escolher para nós mesmos os valores e os credos com os quais viver. Dizem-nos que não temos necessidade de Deus nem da Igreja. Se somos tentados a crer nelas, deveríamos recordar o episódio do Evangelho de hoje, quando os discípulos, todos pescadores peritos, labutaram a noite inteira, mas não pescaram nem sequer um peixe. Depois, quando Jesus apareceu à margem, indicou-lhes onde pescar e puderam realizar uma pesca tão abundante, que tinham dificuldade para a arrastar. Abandonados a si mesmos, os seus esforços eram infecundos; quando Jesus permaneceu ao seu lado, capturaram uma enorme quandidade de peixes. Meus caros irmãos e irmãs, se depositarmos a nossa confiança no Senhor e seguirmos os seus ensinamentos, colheremos sempre muitos frutos.

A primeira leitura da Missa hodierna é daquelas que sei que gostais de ouvir: a narração do naufrágio de Paulo no litoral de Malta e a calorosa hospitalidade que lhe foi reservada pela população destas ilhas. Observai como os componentes da tripulação do barco, para poder sobreviver, foram obrigados a lançar borda fora toda a carga, os equipamentos do barco e até mesmo o trigo, que era o seu único sustento. Paulo exortou-os a depositar a sua confiança unicamente em Deus, enquanto o barco era sacudido pelas ondas. Também nós temos que depositar a nossa confiança somente nele. Somos tentados a pensar que a tecnologia avançada dos nossos dias possa satisfazer todos os nossos desejos e salvar-nos dos perigos que nos angustiam. Mas não é assim. Em cada momento da nossa vida, dependemos inteiramente de Deus no qual vivemos, nos movemos e temos a nossa existência. Só Ele pode proteger-nos do mal, somente ele pode orientar-nos no meio das tempestades da vida e apenas ele pode conduzir-nos para um porto seguro, como fez por Paulo e pelos seus companheiros, à deriva nas costas de Malta. Eles fizeram aquilo que Paulo os exortava a fazer, e foi assim que "todos chegaram à terra sãos e salvos" (Act 27, 44).

Mais do que qualquer carga que podemos podemos carregar connosco – no sentido das nossas realizações humanas, das nossas propriedades e da nossa tecnologia – é a nossa relação com o Senhor que oferece a chave da nossa felicidade e da nossa realização humana. E ele chama-nos a uma relação de amor. Prestai atenção à pergunta que, por três vezes, ele dirige a Pedro à margem do lago: "Simão, filho de João, tu amas-me?". Com base na resposta afirmativa de Pedro, Jesus confia-lhe uma tarefa, a tarefa de apascentar o seu rebanho. Aqui vemos o fundamento de todo o ministério pastoral na Igreja. É o nosso amor pelo Senhor que deve plasmar todos os aspectos da nossa pregação e ensinamento, da celebração dos sacramentos e do nosso cuidado pelo Povo de Deus. É o nosso amor pelo Senhor que nos impele a amar aqueles que Ele ama, e a aceitar de bom grado a tarefa de comunicar o seu amor àqueles que servimos. Durante a paixão do Senhor, Pedro renegou-o três vezes. Agora, depois da Ressurreição, Jesus convida-o três vezes a declarar o seu amor, oferecendo deste modo salvação e perdão, e ao mesmo tempo confiando-lhe a sua missão. A pesca milagrosa tinha sublinhado a dependência dos Apóstolos de Deus para o bom êxito dos seus projectos terrenos. O diálogo entre Pedro e Jesus salientou a necessidade da misericórdia divina para curar as suas feridas espirituais, as feridas do pecado. Em cada âmbito da nossa vida, temos necessidade da ajuda da graça de Deus. Com Ele podemos realizar todas as coisas: sem Ele, nada podemos fazer.

Conhecemos do Evangelho de São Marcos os sinais que acompanham aqueles que depositaram a sua fé em Jesus: apanharão serpentes com as mãos, e isto não lhes fará padecer qualquer mal; imporão as mãos sobre os doentes e eles serão curados (cf. Mc 16, 18). Tais sinais foram depressa reconhecidos pelos vossos antepassados, quando Paulo chegou ao meio deles. Uma víbora agarrou-se à sua mão, mas ele simplesmente sacudiu-a, lançando-a no fogo sem sofrer qualquer dor. Paulo desejava ver o pai de Públio, o "protos" da ilha, depois de ter rezado e imposto as mãos sobre ele, curou-o da febre. De todos os dons trazidos a estas costas durante a história do vosso povo, aquele que Paulo trouxe foi o maior de todos, e é vosso mérito que ele tenha sido imediatamente acolhido e conservado. Conservai a fé e os valores que vos foram transmitidos pelo vosso pai, o Apóstolo São Paulo. Continuai a explorar a riqueza e a profundidade do dom de Paulo e procurai transmiti-lo não apenas aos vossos filhos, mas a todos aqueles que encontrais hoje. Cada visitante de Malta deveria ficar impressionado pela devoção do seu povo, pela fé vibrante manifestada nas celebrações nos dias de festa, pela beleza das suas igrejas e dos seus santuários. Mas aquela dádiva tem necessidade de ser compartilhada com outros, deve ser manifestada. Como Moisés ensinou ao povo de Israel, os preceitos do Senhor "serão gravados no teu coração. Ensiná-los-ás aos teus filhos e meditá-los-ás quer em tua casa, quer em viagem, quer ao deitar-te ou ao levantar-te" (Dt 6, 6-7). Isto foi bem compreendido pelo primeiro santo canonizado de Malta, Dun Gorg Preca. A sua incansável obra de catequese, inspirando jovens e idosos com um amor pela doutrina cristã e uma profunda devoção ao Verbo encarnado, tornou-se um exemplo que vos exorto a conservar. Recordai que o intercâmbio de bens entre estas ilhas e o resto do mundo é um processo bilateral. Aquilo que recebeis, valorizai-o com atenção, e o que possuís de valor sabei compartilhá-lo com os demais.

Desejo dirigir uma palavra particular aos sacerdotes aqui presentes, neste ano dedicado à celebração do grande dom do sacerdócio. Dun Gorg era um presbítero de humildade, bondade, mansidão e generosidade extraordinárias, profundamente dedicado à oração e com a paixão de comunicar as verdades do Evangelho. Tomai-o como modelo e inspiração para vós, enquanto cumpris a missão que recebestes de apascentar a grei do Senhor. Recordai também a pergunta que o Senhor ressuscitado dirigiu três vezes a Pedro: "Tu amas-me?". Esta é a pergunta que Ele dirige a cada um de vós. Vós o amais? Desejai servi-lo com o dom de toda a vossa vida? Desejais levar outros a conhecê-lo e a amá-lo? Com Pedro, tende a coragem de responder: "Sim, Senhor, Tu sabes que te amo!", e assumi com um coração grato a magnífica tarefa que Ele vos designou. A missão confiada aos sacerdotes é verdadeiramente um serviço à alegria, ao júbilo de Deus que deseja ardentemente irromper no mundo (cf. Homilia, 24 de Abril de 2005).

Olhando agora ao meu redor a grande multidão reunida aqui em Floriana para a celebração da Eucaristia, volta-me à mente a cena descrita na segunda leitura de hoje, na qual miríades de miríades, e milhares de milhares uniram as suas vozes num grande hino de louvor: "Àquele que está sentado sobre o trono e ao Cordeiro sejam dadas acções de graças, honra, glória e poder para todo o sempre" (Ap 5, 13).

Continuai a entoar este hino, para o louvor do Senhor ressuscitado e em acção de graças pelos seus múltiplos dons. Com as palavras de São Paulo, Apóstolo de Malta, concluo a minha exortação a vós esta manhã: "Eu amo-vos a todos em Cristo Jesus!" (1 Cor 16, 24).

Louvado seja Jesus Cristo!

Seja Herói!



Ser herói parece um privilégio reservado a poucos... No entanto, quando a Igreja se dispõe a averiguar a autenticidade cristã de alguém que tenha morrido em odor de santidade, o primeiro passo consiste em examinar se foi heróico ou não na prática das virtudes. Isto quer dizer que o heroísmo é um componente básico do ideal cristão. Ser heróico vem a ser algo de normal ou normativo para o cristão.

E em que consiste o heroísmo?

- Não é necessariamente fazer coisas vistosas, mas, sim fazer aquilo que Deus pede (às vezes, simplesmente o cotidiano rotineiro) de maneira coerente e radical, sem regateios nem tibieza. Aí está o extraordinário do heroísmo cristão: apesar da tendência à lerdeza e à acomodação, mobiliza-se para realizar com a possível perfeição cada tarefa do dia e da noite. Com outras palavras: o heroísmo consiste em que o cristão não se deixe abater por erros e falhas, não capitule nem se entregue à mórbida compaixão para consigo mesmo, mas procure reerguer-se prontamente de suas quedas e prossiga com fortaleza e serenidade na estrada do Senhor.

Um texto bíblico vem muito a propósito... A epístola aos Hebreus é dirigida a cristãos propensos ao desânimo... o autor sagrado propõe-lhes então, no capítulo 11, a galeria dos heróis da fé desde o justo Abel até os mártires macabeus (séc. II a.C.). E acrescenta: toda essa multidão de gente forte se coloca agora como "torcedores" num estádio, a espreitar o modo como as gerações cristãs, por sua vez, assumem o desafio da sua vocação: esta não é vocação para corrida de salto espetacular, que em segundos é superada retumbantemente, mas é corrida de fôlego, que tanto mais gloriosa é quanto mais prolongada: um passo, um passo, mais um passo, mais um passo... até chegar "caindo aos pedaços"; cf. Hb 12,1-4. Tal é o heroísmo cristão: uma corrida de fôlego, que os espectadores não têm paciência e tempo para acompanhar, porque "não termina mais"; Deus, porém, e o atleta cristão sabem quanto esse heroísmo imperceptível é grande. Para vencer o páreo, o cristão tem que depor o fardo do pecado, que o torna pesado (torne-se "peso leve") e munir-se de paciência tenaz e perseverante. O autor observa ulteriormente: "Ainda não disputastes até o derramamento do sangue" (Hb 12,4), o que lembra um princípio proposto aos atletas greco-romanos: "Não é atleta consagrado aquele que não vê correr o seu sangue".

Neste mês de junho, que lembra o amor heróico de Cristo configurado em seu Coração, possam os fiéis católicos tornar-se conscientes desta sua vocação ao heroísmo e fujam da "áurea mediocridade", que é anemia e leva à estagnação e à morte.

"Somos filhos dos Santos, e esperamos aquela vida que Deus há de dar àqueles que nunca retiram dele a sua fé" (Tb 2,18 Vg).

Os Cristãos no Mundo



Na literatura cristã de começo do século III encontra-se uma carta, de autor desconhecido, destinada a certo Diogneto, na qual o escritor apresenta o que é o "ser cristão". É peça notável, cujo teor merece ser recordado em nossos dias, pois conserva pleno significado.

O autor refere que os cristãos em nada diferem dos demais homens no plano biológico, social, econômico... Todavia em seu íntimo trazem uma vitalidade que transcende as leis da matéria: "Quando entregues à morte, são vivificados. Na pobreza enriquecem a muitos... São desprezados, mas, no meio de desonras, sentem-se glorificados". E finalmente: "Para resumir numa palavra: o que é a alma no corpo, são os cristãos no mundo".

Estas palavras não são totalmente novas na literatura cristã, pois já o Apóstolo afirmava: Vivemos "como punidos e, não obstante, livres da morte; ...como indigentes, e, não obstante, enriquecendo a muitos; como nada tendo, embora tudo possuamos" (2Cor 6,10).

Essa vitalidade rica do cristão não resulta de conquistas humanas, mas é dom de Deus. É a participação na Páscoa de Cristo, que transfigurou a dor e a morte, colocando na própria ignomínia uma semente de glória.

A consciência deste tesouro há de ser constantemente reavivada no cristão, pois ele está sujeito às vicissitudes que afetam todos os homens. Nas horas de tribulação e angústia, saiba assumir a atitude de quem vê o sentido transcendental das borrascas presentes. Procure ser fermento na massa, sal da terra, luz do mundo. O Concílio do Vaticano II, referindo-se aos fiéis em geral exorta:

"Cada leigo individualmente deve ser perante o mundo uma testemunha da ressurreição e vida do Senhor Jesus e sinal do Deus vivo. Todos juntos, e cada um na medida das suas possibilidades, devem alimentar o mundo com frutos espirituais... Numa palavra: o que a alma é no corpo, isto sejam no mundo os cristãos" (Lumen Gentium nº 38).

É oportuno lembrar isto num momento importante como o que o Brasil está vivendo: critérios meramente naturais ou humanos, atitudes utilitárias pouco consentâneas com a escala de valores do Evangelho podem seduzir o cristão. Este há de procurar não trair sua missão de portador de novas perspectivas para os seus semelhantes; ele tem para com estes um débito de que o Senhor Deus lhe pedirá contas um dia: "O que a alma é no corpo, sejam os cristãos no mundo". Desta santa ufania o cristão não pode abrir mão; antes, traduza-a em atos e vida!

Pe. Estêvão Bettencourt, OSB

"Creio na Igreja Santa..."



Esta profissão de fé dos Concílios de Nicéia I (325) e Constantinopla I (381) ressoa até entre os fiéis católicos... E sempre a propósito.

A Igreja é santa, porque, como diz o Apóstolo, é o Corpo de Cristo prolongado (cf. Cl 1,24); Cristo nela vive e garante a sua indefetibilidade e santidade. Ela é também dita, sob outro aspecto, "a Esposa sem mancha nem ruga, santa e irrepreensível" (Ef 5,27). É incessante a santidade da Igreja, porque é indissolúvel a sua união com Cristo.

Então como entender o pecado na Igreja?

Visto que prolonga o mistério da Encarnação, a Igreja é revestida de humanidade. Ela consta também de seres humanos frágeis e limitados, sujeitos a falhas, em demanda da plenitude da vida e da perfeição. Daí dizer-se com razão: "Igreja santa de homens pecadores" (Karl Rahner). Podemos até afirmar que a Igreja não existe sem pecadores. Mas Ela não tem pecado. O pecado existe na Igreja, mas não é da Igreja.

Com outras palavras: considerada segundo aquilo que a constitui propriamente, a Igreja não comete pecado, pois é constituída pelo mistério da Encarnação prolongada. O pecado se encontra nas criaturas humanas,... criaturas nas quais existem elementos da Igreja e elementos que não são da Igreja; sim, em todo cristão fica algo de pagão ou uma tendência à infidelidade à sua vocação de membro do Corpo de Cristo. Consequentemente, deve-se dizer que as fronteiras da Igreja não passam longe de nós, mas atravessam o coração de cada cristão, na medida em que nele há algo que ainda não foi plenamente cristianizado. Somente a Virgem Maria realizou adequadamente em si a santidade da Igreja; por isto Ela é o tipo perfeito ou a imagem definitiva da Igreja.

Ainda em outros termos: o sujeito do pecado não pode ser a Igreja, pois todo pecado é sempre obra de uma pessoa física individual. Por seus princípios próprios e constitutivos, a Igreja é sem mancha. Quanto aos homens que a Ela pertencem, deve-se dizer: na medida em que são pecadores, não são da Igreja, mas estão na Igreja. Os pecados estão fora do programa e do âmago da Igreja; todavia os que cometem o pecado, estão dentro da Igreja. Jacques Maritain distinguia sabiamente entre a Pessoa da Igreja (Corpo Místico de Cristo) e o pessoal da Igreja (que somos nós). Acrescentemos, porém: é a própria Mãe Igreja quem tira do seu tesouro de vida o remédio eficaz para curar as feridas de seus filhos; Ela não precisa de recorrer a outra fonte senão ao próprio Senhor Jesus, que nela vive e continua a sua ação redentora. – São estas verdades que a Constituição Lumem Gentium recorda em seu § 8:

"A Igreja é fortalecida pela força do Senhor Ressuscitado,... para poder revelar ao mundo o mistério dele, embora entre sombras, mas com fidelidade, até que no fim dos tempos seja manifestado em plena luz".

Que o fiel católico, portanto, ame a Igreja, e a Ela se dedique generosamente, pois "não pode ter Deus por Pai no céu quem não tem a Igreja por Mãe na terra" (S. Cipriano)

Pe. Estêvão Bettencourt, OSB


Texto publicado na Revista Pergunte e Responderemos nº 387, Agosto/1994.

Podemos responder que sim e podemos responder que não. A resposta, na verdade, depende de como se entende a palavra FÉ. Essa palavra pode se entendida de dois modos:

PRIMEIRO MODO: fé é uma confiança, uma entrega completa a Deus. Como diz o Catecismo da Igreja Católica, é uma adesão total a Deus: “É justo e bom entregar-se totalmente a Deus e crer absolutamente o que ele diz” (nº 150)
Nesse sentido, quem tem fé, NÃO tem dúvida.

SEGUNDO MODO: fé significa um conhecimento imperfeito, uma condição limitada de enxergar a Deus e seu plano. Por diversas vezes, São Paulo fala sobre a fé apontando o seu caráter provisório, como se estivéssemos numa sombra que logo cederá à luz, “pois caminhamos pela fé e não pela visão” (2Cor 5,7). Para Paulo, a fé é diferente da visão e é uma condição de quem está peregrino na terra e ainda não obtém o modo perfeito de se conhecer a Deus: “Agora vemos como em espelho e de maneira confusa; mas depois veremos face a face. Agora o meu conhecimento é limitado, mas depois conhecerei como sou conhecido” (1Cor 13,12).
Nesse sentido, quem tem fé, tem dúvida.

É claro que nem todas as pessoas peregrinas neste mundo têm dúvidas com relação às questões de fé. No entanto, é bastante comum se ter dúvidas. E não pensemos que isso seja ruim: a dúvida pode ser a maneira que Deus utiliza para nos ensinar. Ter dúvida é um bom sinal: sinal de que estamos refletindo e querendo saber sobre Deus!

Não faltam na Bíblia exemplos de pessoas de fé que tiveram dúvida:

JOÃO BATISTA, que batizou Jesus no Rio Jordão, quando estava na prisão enviou alguns discípulos para perguntarem a Jesus se Ele era mesmo o Salvador esperado (Mt 11,2-3). João Batista teve fé e teve dúvida.

PEDRO, o primeiro Apóstolo, pediu a Jesus para ir caminhando sobre as águas. No meio do caminho, sentiu o vento, ficou com medo e começou a afundar. “Jesus logo estendeu a mão, segurou Pedro, e lhe disse: ‘Homem fraco na fé, por que você duvidou?’” (Mt 14,25-31). Pedro teve fé e teve dúvida.

PAULO, que teve uma visão do Senhor durante uma viagem e se tornou um evangelizador incansável, foi a Jerusalém para estar com os Apóstolos Pedro, Tiago e João, a fim de confirmarem sua pregação, pois Paulo pensava que poderia estar pregando algo equivocado, “ter corrido em vão” (Gl 2,2). Paulo teve fé e teve dúvida.

É desse modo, portanto, que se estabelece o nosso site: uma oportunidade que Deus nos dá de acendermos mais luzes na penumbra da caminhada de fé. Fé que um dia, certamente, dará lugar a uma visão clara e límpida do projeto de Deus e, “nesse dia vocês não mais farão perguntas” (Jo 16,23). Por enquanto, podemos e devemos perguntar, pois QUEM TEM FÉ, TEM DÚVIDA.

Tomé era o único discípulo que estava ausente quando Jesus veio ressuscitado (Jo 20,24). Ao voltar, ouviu o que acontecera, mas negou-se a acreditar. Veio de novo o Senhor, e mostrou seu lado ao discípulo incrédulo para que o pudesse apalpar; mostrou-lhe as mãos e, mostrando-lhe também a cicatriz de suas chagas, curou a chaga daquela falta de fé. Que pensais, irmãos caríssimos, de tudo isso? Pensais ter acontecido por acaso que aquele discípulo estivesse ausente naquela ocasião, que, ao voltar, ouvisse contar, que, ao ouvir, duvidasse, que, ao duvidar, apalpasse, e que, ao apalpar, acreditasse?

Nada disso aconteceu por acaso, mas por disposição da providência divina. A clemência do alto agiu de modo admirável a fim de que, ao apalpar as chagas do corpo de seu mestre, aquele discípulo que duvidara curasse as chagas da nossa falta de fé. A incredulidade de Tomé foi mais proveitosa para a nossa falta de fé do que fé dos discípulos que acreditaram logo. Pois, enquanto ele é reconduzido à fé, porque pôde apalpar, o nosso espírito, pondo de lado toda dúvida, confirma-se na fé. Desse modo, o discípulo que duvidou e apalpou torna-se testemunha da verdade da ressurreição.

Tomé apalpou e exclamou: Meu Senhor e Meu Deus! Jesus lhe disse: Acreditaste, porque me viste? (Jo 20,28-29). Ora, como diz o apóstolo Paulo: A fé é um modo de já possuir o que ainda se espera, a convicção acerca de realidades que não se vêem (Hb 11,1). Logo, está claro que a fé é a prova daquelas realidades que não podem ser vistas. De fato, as coisas que podemos ver não são objeto de fé, e sim de conhecimento direto. Então, se Tomé viu e apalpou, por qual razão o Senhor lhe disse: Acreditaste, porque me viste? É que ele viu uma coisa e acreditou noutra. A divindade não podia ser vista por um mortal. Tomé viu a humanidade de Jesus e proclamou a fé na sua divindade, exclamando: Meu Senhor e meu Deus! Por conseguinte, tendo visto, acreditou. Vendo um verdadeiro homem, proclamou que ele era Deus, a quem não podia ver.

Alegra-nos imensamente o que vem a seguir: Bem-aventurados os que creram sem ter visto (Jo 20,29). Não resta dúvida de que esta frase se refere especialmente a nós. Pois não vimos o Senhor em sua humanidade, mas o possuímos em nosso espírito. É a nós que ela se refere, desde que as obras acompanhem nossa fé. Com efeito, quem crê verdadeiramente, realiza por suas ações a fé que professa. Mas, pelo contrário, a respeito daqueles que têm fé apenas de boca, eis o que diz São Paulo: Fazem profissão de conhecer a Deus, mas negam-no com sua prática (Tt 1,16). É o que leva também São Tiago a afirmar: A fé, sem obras, é morta (Tg 2,26).

São Gregório Magno, Papa.

"São Tomé, Rogai por nós!"

IDEOLOGIA DA IGREJA e rejeição das ideologias totalitárias e atéias

§2425 A Igreja tem rejeitado as ideologias totalitárias e atéias associadas, nos tempos modernos, ao "comunismo" ou ao "socialismo". Além disso, na prática do "capitalismo", ela recusou o individualismo e o primado absoluto da lei do mercado sobre o trabalho humano. A regulamentação da economia exclusivamente por meio planejamento centralizado perverte na base os vínculos sociais; sua regulamentação unicamente pela lei do mercado vai contra a justiça social, "pois há muitas necessidades humanas que não podem atendidas pelo mercado". É preciso preconizar uma regulamentação racional do mercado e das iniciativas econômicas, de acordo com uma justa hierarquia de valores e em vista do bem comum.

I.11 IGUALDADE

I.11.1 Igualdade e diversidade entre homens e mulheres

§369 O homem e a mulher são criados, isto é, são queridos por Deus: por um lado, em perfeita igualdade como pessoas humanas e, por outro, em seu ser respectivo de homem e de mulher. "Ser homem, 'ser mulher" é uma realidade boa e querida por Deus: o homem e a mulher têm uma dignidade inamissível que lhes vem diretamente de Deus, seu Criador. O homem e a mulher são criados em idêntica dignidade, "à imagem de Deus". Em seu "ser-homem" e seu "ser-mulher" refletem a sabedoria e a bondade do Criador.

I.11.2 Igualdade entre Cristãos

§872 "Entre todos os fiéis de Cristo, por sua regeneração em Cristo, vigora, no que se refere à dignidade e à atividade, uma verdadeira igualdade, pela qual todos, segundo a condição e os múnus próprios de cada um, cooperam na construção do Corpo de Cristo."

I.11.3 Igualdade entre os homens

§1934 Igualdade e diferenças entre os homens Criados à imagem do Deus único, dotados de uma mesma alma racional, todos os homens têm a mesma natureza e a mesma origem. Resgatados pelo sacrifício de Cristo, todos são convidados a participar na mesma felicidade divina; todos gozam, portanto, de igual dignidade..

§1935 A igualdade entre os homens diz respeito essencialmente à sua dignidade pessoal e aos direitos que daí decorrem.

Qualquer forma de discriminação nos direitos fundamentais da pessoa, seja (essa discriminação) social ou cultural, ou que se fundamente no sexo, na raça, na cor, na condição social, na língua ou na religião deve ser superada e eliminada, porque contrária ao plano de Deus.

I.12 IMACULADA

I.12.1 Dia da Imaculada Conceição

§2177 A EUCARISTIA DOMINICAL A celebração dominical do Dia e da Eucaristia do Senhor está no coração da vida da Igreja. "O domingo, dia em que por tradição apostólica se celebra o Mistério Pascal, deve ser guardado em toda a Igreja como dia de festa de preceito por excelência."

"Devem ser guardados igualmente o dia do Natal de Nosso Senhor Jesus Cristo, da Epifania, da Ascensão e do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo, de Santa Maria, Mãe de Deus, de sua Imaculada Conceição e Assunção, de São José, dos Santos Apóstolos Pedro e Paulo e, por fim, de Todos os Santos."

I.12.2 Imaculada Conceição

§490 Para ser a Mãe do Salvador, Maria "'foi enriquecida por Deus com dons dignos para tamanha função". No momento da Anunciação, o anjo Gabriel a saúda como "cheia de graça". Efetivamente, para poder dar o assentimento livre de sua fé ao anúncio de sua vocação era preciso que ela estivesse totalmente sob a moção da graça de Deus.

§491 Ao longo dos séculos, a Igreja tomou consciência de que Maria, "cumulada de graça" por Deus, foi redimida desde a concepção. E isso que confessa o dogma da Imaculada Conceição, proclamado em 1854 pelo papa Pio IX:

A beatíssima Virgem Maria, no primeiro instante de sua Conceição, por singular graça e privilégio de Deus onipotente, em vista dos méritos de Jesus Cristo, Salvador do gênero humano foi preservada imune de toda mancha do pecado original.

§492 Esta "santidade resplandecente, absolutamente única" da qual Maria é "enriquecida desde o primeiro instante de sua conceição. lhe vem inteiramente de Cristo: "Em vista dos méritos de seu Filho, foi redimida de um modo mais sublime". Mais do que qualquer outra pessoa criada, o Pai a "abençoou com toda a sorte de bênçãos espirituais, nos céus, em Cristo" (Ef 1,3). Ele a "escolheu nele (Cristo), desde antes da fundação do mundo, para ser santa e imaculada em sua presença, no amor" (Ef 1,4).

§493 Os Padres da tradição oriental chamam a Mãe de Deus "a toda santa" ("Pan-hagia"; pronuncie "pan-haguía"), celebram-na como "imune de toda mancha de pecado, tendo sido plasmada pelo Espirito Santo, e formada como uma nova criatura". Pela graça de Deus, Maria permaneceu pura de todo pecado pessoal ao longo de toda a sua vida.

I.13 IMAGENS SACRAS vide também ÍCONES

§1159 AS SANTAS IMAGENS A imagem sacra, o ícone litúrgico, representa principalmente Cristo. Ela não pode representar o Deus invisível e incompreensível; é a encarnação do Filho de Deus que inaugurou uma nova "economia" das imagens:

Antigamente Deus, que não tem nem corpo nem aparência, não podia em absoluto ser representado por uma imagem. Mas agora que se mostrou na carne e viveu com os homens posso fazer uma imagem daquilo que vi de Deus. (...) Com o rosto descoberto, contemplamos a glória do Senhor.

§1160 A iconografia cristã transcreve pela imagem a mensagem evangélica que a Sagrada Escritura transmite pela palavra. Imagem e palavra iluminam-se mutuamente:

Para proferir sucintamente nossa profissão de fé, conservamos todas as tradições da Igreja, escritas ou não-escritas, que nos têm sido transmitidas sem alteração. Uma delas é a representação pictórica das imagens, que concorda com a pregação da história evangélica, crendo que, de verdade e não na aparência, o Verbo de Deus se fez homem, o que é também útil e proveitoso, pois as coisas que se iluminam mutuamente têm sem dúvida um significado recíproco.

§1161 Todos os sinais da celebração litúrgica são relativos a Cristo: são-no também as imagens sacras da santa mãe de Deus e dos santos. Significam o Cristo que é glorificado neles. Manifestam "a nuvem de testemunhas" (Hb 12,1) que continuam a participar da salvação do mundo e às quais estamos unidos, sobretudo na celebração sacramental. Por meio de seus ícones, revela-se à nossa fé o homem criado "à imagem de Deus" e transfigurado "à sua semelhança", assim como os anjos, também recapitulados em Cristo:

Na trilha da doutrina divinamente inspirada de nossos santos Padres e da tradição da Igreja católica, que sabemos ser a tradição do Espírito Santo que habita nela, definimos com toda certeza e acerto que as veneráveis e santas imagens, bem como as representações da cruz preciosa e vivificante, sejam elas pintadas, de mosaico ou de qualquer outra matéria apropriada, devem ser colocadas nas santas igrejas de Deus, sobre os utensílios e as vestes sacras, sobre paredes e em quadros, nas casas e nos caminhos, tanto a imagem de Nosso Senhor, Deus e Salvador, Jesus Cristo, como a de Nossa Senhora, a puríssima e santíssima mãe de Deus, dos santos anjos, de todos os santos e dos justos.

§1162 "A beleza e a cor das imagens estimulam minha oração. É uma festa para os meus olhos, tanto quanto o espetáculo do campo estimula meu coração a dar glória a Deus." A contemplação dos ícones santos, associada à meditação da Palavra de Deus e ao canto dos hinos litúrgicos, entra na harmonia dos sinais da celebração para que o mistério celebrado se grave na memória do coração e se exprima em seguida na vida nova dos fiéis.

I.14 IMAGINAÇÃO

I.14.1 Disciplina da imaginação

§2520 . A luta pela pureza O Batismo confere àquele que o recebe a graça da purificação de todos os pecados. Mas o batizado deve continuar a lutar contra a concupiscência da carne e as cobiças desordenadas. Com a graça de Deus, alcançará a pureza de coração:

* pela virtude e pelo dom da castidade, pois a castidade permite amar com um coração reto e indiviso;

* pela pureza de intenção, que consiste em ter em vista o fim verdadeiro do homem; com uma atitude simples, o batizado procura encontrar e realizar a vontade de Deus em todas as coisas;

* pela pureza do olhar, exterior e interior; pela disciplina dos sentimentos e da imaginação; pela recusa de toda complacência nos pensamentos impuros que tendem a desviar do caminho dos mandamentos divinos: "A desperta a paixão dos insensatos" (Sb 15,5);

* pela oração:

Eu julgava que a continência dependia de minhas próprias forças... forças que eu não conhecia em mim. E eu era tão insensato que não sabia que ninguém pode ser continente, se vos lho concedeis. E sem dúvida mo teríeis concedido, se com gemidos interiores vos ferisse os ouvidos e, com firme fé, pusesse em vós minha preocupação.

I.14.2 Mobilização da imaginação

§2708 A meditação mobiliza o pensamento, a imaginação, a emoção e o desejo. Essa mobilização é necessária para aprofundar as convicções de fé, suscitar a conversão do coração e fortificar a vontade de seguir a Cristo. A oração cristã procura meditar de preferência "os mistérios de Cristo", como na "lectio (leitura) divina" ou no Rosário. Esta forma de reflexão orante é de grande valor, mas a oração cristã deve procurar ir mais longe: ao conhecimento de amor do Senhor Jesus, à união com Ele.

I.15 IMIGRANTES

I.15.1 Acesso ao trabalho aberto também aos migrantes

§2433 O acesso ao trabalho e à profissão deve estar aberto a todos, sem discriminação injusta: homens e mulheres, normais e excepcionais ou deficientes, autóctones e migrantes. Em função das circunstâncias, também a sociedade deve ajudar os cidadãos a conseguir um trabalho e um emprego.

I.15.2 Deveres das autoridade políticas para com os migrantes

§2241 As nações mais favorecidas devem acolher, na medida do possível, o estrangeiro em busca da segurança e dos recursos vitais que não pode encontrar em seu país de origem. Os poderes públicos zelarão pelo respeito do direito natural que põe o hóspede sob a proteção daqueles que o recebem.

Em vista do bem comum de que estão encarregadas, as autoridades políticas podem subordinar o exercício do direito de imigração a diversas condições jurídicas, principalmente com respeito aos deveres dos migrantes para com o país de adoção. O migrante é obrigado a respeitar com gratidão o patrimônio material e espiritual do país que o acolhe, a obedecer às suas leis e a dar sua contribuição financeira..

I.16 IMORTALIDADE

I.16.1 Eucaristia "remédio de imortalidade"

§1405 Desta grande esperança, a dos céus novos e da terra nova nos quais habitará a justiça, não temos penhor mais seguro, sinal mais manifesto do que a Eucaristia. Com efeito, toda vez que é celebrado este mistério, "opera-se a obra da nossa redenção" e nós "partimos um mesmo pão, que é remédio de imortalidade, antídoto não para a morte, mas para a vida eterna em Jesus Cristo".

§2837 "De cada dia." Esta palavra, "epiousios" (pronuncie: epiússios), não é usada em nenhum outro lugar no Novo Testamento. Tomada em um sentido temporal, é uma retomada pedagógica de "hoje" para nos confirmar numa confiança "sem reserva". Tomada em sentido qualitativo, significa o necessário à vida, e, em sentido mais amplo, todo bem suficiente para a subsistência. Literalmente (epiousios: "supersubstancial"), designa diretamente o Pão de Vida, o Corpo de Cristo, "remédio de imortalidade", sem o qual não temos a Vida em nós. Enfim, ligado ao que precede, o sentido celeste é evidente: "este Dia" é o Dia do Senhor, o do Banquete do Reino, antecipado na Eucaristia que é já o antegozo do Reino que vem. Por isso convém que a Liturgia eucarística seja celebrada "cada dia.

A Eucaristia é nosso pão cotidiano. A virtude própria deste alimento divino é uma força de união que nos vincula ao Corpo do Salvador e nos faz seus membros, a fim de que nos transformemos naquilo que recebemos... Este pão cotidiano está ainda nas leituras que ouvis cada dia na Igreja, nos hinos que são cantados e que vós cantais. Tudo isso é necessário à nossa peregrinação.

O Pai do céu nos exorta a pedir, como filhos do céu, o Pão do céu. Cristo "é Ele mesmo o pão que, semeado na Virgem, levedado na carne, amassado na Paixão, cozido no forno do sepulcro, colocado em reserva na Igreja, levado aos altares, proporciona cada dia aos fiéis um alimento celeste".

I.16.2 Imortalidade da alma

§366 A Igreja ensina que cada alma espiritual é diretamente criada por Deus - não é "produzida" pelos pais - e é imortal: ela não perece quando da separação do corpo na morte e se unirá novamente ao corpo na ressurreição final

I.18 IMPUTABILIDADE DAS AÇÕES E CULPAS

§1735 A imputabilidade e a responsabilidade de uma ação podem ficar diminuídas ou suprimidas pela ignorância, inadvertência, violência, medo, hábitos, afeições imoderadas e outros fatores psíquicos ou sociais.

§1860 A ignorância involuntária pode diminuir ou até escusar a imputabilidade de uma falta grave, mas supõe-se que ninguém ignora os princípios da lei moral inscritos na consciência de todo ser humano. Os impulsos da sensibilidade, as paixões podem igualmente reduzir o caráter voluntário e livre da falta, como também pressões exteriores e perturbações patológicas. O pecado por malícia, por opção deliberada do mal, é o mais grave.§1860

§2125 Na medida em que rejeita ou recusa a existência de Deus, o ateísmo é um pecado contra a virtude da religião. A imputabilidade desta falta pode ser seriamente diminuída em virtude das intenções e das circunstâncias. Na gênese e difusão do ateísmo, "grande parcela de responsabilidade pode caber aos crentes, na medida em que, negligenciando a educação da fé, ou por uma exposição enganosa da doutrina, ou por deficiência em sua vida religiosa, moral e social, se poderia dizer deles que mais escondem do que manifestam o rosto autêntico de Deus e da religião"

§2355 A prostituição vai contra a dignidade da pessoa que se prostitui, reduzida, assim, ao prazer venéreo que dela se obtém. Aquele que paga peca gravemente contra si mesmo; viola a castidade à qual se comprometeu em seu Batismo e mancha seu corpo, templo do Espírito Santo. A prostituição é um flagelo social. Envolve comumente mulheres, mas homens, crianças ou adolescentes (nestes dois últimos casos, ao pecado soma-se um escândalo). Se é sempre gravemente pecaminoso entregar-se à prostituição, a miséria, a chantagem e a pressão social podem atenuar a imputabilidade da falta.

I.19 INCENSO

§1154 A liturgia da palavra é parte integrante das celebrações sacramentais. Para alimentar a fé dos fiéis, os sinais da Palavra de Deus precisam ser valorizados: o livro da palavra (lecionário ou evangeliário), sua veneração (procissão, incenso, luz), o lugar de onde é anunciado (ambão), sua leitura audível e inteligível, a homilia do ministro que prolonga sua proclamação, as respostas da assembléia (aclamações, salmos de meditação, ladainhas, profissão de fé...)..

I.20 INCESTO

I.20.1 Gravidade do incesto

§2356 O estupro designa a penetração à força, com violência, na intimidade sexual de uma pessoa. Fere a justiça e a caridade. O estupro lesa profundamente o direito de cada um ao respeito, à liberdade, à integridade física e moral. Provoca um dano grave que pode marcar a vítima por toda a vida. E sempre um ato intrinsecamente mau. Mais grave ainda é o estupro cometido pelos pais (cf. incesto) ou educadores contra as criança que lhes são confiadas.

I.20.2 Significação e conseqüências do incesto

§2388 O incesto designa relações íntimas entre parentes ou pessoas afins, em grau que proíba entre eles o casamento. S. Paulo estigmatiza esta falta particularmente grave: "É geral ouvir-se falar de mau comportamento entre vós... um dentre vós vive com a mulher de seu pai... E preciso que, em nome Senhor Jesus... entreguemos tal homem a Satanás para a perda de sua carne..." (1 Cor 5,1.3-5). O incesto corrompe as relações familiares e indica como que uma regressão à animalidade.

I.21 INCORPORAÇÃO

I.21.1 Incorporação a Cristo

§1010 Graças a Cristo, a morte cristã tem um sentido positivo. "Para mim, a vida é Cristo, e morrer é lucro" (Fl 1,21). "Fiel é esta palavra: se com Ele morremos, com Ele viveremos" (2Tm 1,11). A novidade essencial da morte cristã está nisto: pelo Batismo, o cristão já está sacramentalmente "morto com Cristo", para Viver de uma vida nova; e, se morrermos na graça de Cristo, a morte física consuma este "morrer com Cristo" e completa, assim, nossa incorporação a ele em seu ato redentor:

É bom para mim morrer em ("eis") Cristo Jesus, melhor do que reinar até as extremidades da terra. É a Ele que procuro, Ele que morreu por nós: é Ele que quero, Ele que ressuscitou por nós. Meu nascimento aproxima-se. (...) Deixai-me receber a pura luz; quando tiver chegado lá, serei homem.

I.21.2 Incorporação à Igreja

§837 "São incorporados plenamente à sociedade, que é a Igreja, os que, tendo o Espírito de Cristo, aceitam a totalidade de sua organização e todos os meios de salvação nela instituídos e em sua estrutura visível - regida por Cristo por meio do Sumo Pontífice e dos Bispos se unem com Ele pelos vínculos da profissão de fé, dos sacramentos, do regime eclesiástico e da comunhão. Contudo não se salva, embora esteja incorporado à Igreja, aquele que, não perseverando na caridade, permanece dentro da Igreja 'com o corpo', mas não 'com o coração."

§1396 A unidade do corpo místico: a Eucaristia faz a Igreja. Os que recebem a Eucaristia estão unidos mais intimamente a Cristo. Por isso mesmo, Cristo os une a todos os fiéis em um só corpo, a Igreja. A comunhão renova, fortalece, aprofunda esta incorporação à Igreja, realizada já pelo Batismo. No Batismo fomos chamados a constituir um só corpo. A Eucaristia realiza este apelo: "O cálice de bênção que abençoamos não é comunhão com o Sangue de Cristo? O pão que partimos não é comunhão com o Corpo de Cristo? Já que há um único pão, nós, embora muitos, somos um só corpo, visto que todos participamos desse único pão" (1Cor 10,16-17).

Se sois o corpo e os membros de Cristo, é o vosso sacramento que é colocado sobre a mesa do Senhor, recebeis o vosso sacramento. Respondeis "Amém" ("sim, é verdade!") àquilo que recebeis, e subscreveis ao responder. Ouvis esta palavra: "o Corpo de Cristo", e respondeis: "Amém". Sede, pois, um membro de Cristo, para que o vosso Amém seja verdadeiro..

I.22 INCREDULIDADE

I.22.1 Definição e significação da incredulidade

§2089 A incredulidade é a negligência da verdade revelada ou a recusa voluntária de lhe dar o próprio assentimento. "Chama-se heresia a negação pertinaz, após a recepção do Batismo, de qualquer verdade que se deve crer com fé divina e católica, ou a dúvida pertinaz a respeito dessa verdade; apostasia, o repúdio total da fé cristã; cisma, a recusa de sujeição ao Sumo Pontífice ou da comunhão com os membros da Igreja a ele sujeitos."

I.22.2 Incredulidade e pecado

§678 Na linha dos profetas e de João Batista, Jesus anunciou em sua pregação o Juízo do último Dia. Então será revelada a conduta de cada um e o segredo dos corações. Será também condenada a incredulidade culpada que fez pouco caso da graça oferecida por Deus. A atitude em relação ao próximo revelará o acolhimento ou a recusa da graça e do amor divino Jesus dirá no último Dia: "Cada vez que o fizestes a um desses meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes" (Mt 25,40).

§1851 É justamente na paixão, em que a misericórdia de Cristo vai vencê-lo, que o pecado manifesta o grau mais alto de sua violência e de sua multiplicidade: incredulidade, ódio assassino, rejeição e zombarias da parte dos chefes e do povo, covardia de Pilatos e crueldade dos soldados, traição de Judas, tão dura para Jesus, negação de Pedro e abandono da parte dos discípulos. Mas, na própria hora das trevas e do príncipe deste mundo, o sacrifício de Cristo se toma secretamente a fonte de onde brotará inesgotavelmente o perdão de nossos pecados..

I.23 INCULTURAÇÃO

I.23.1 Elementos culturais próprios de cada povo adaptados na iniciação cristã

§1232 O concílio Vaticano II restaurou, para a Igreja latina, "o catecumenato dos adultos, distribuído em várias etapas". Encontram-se tais ritos no Ordo initiationis christianae adultorum (Ritual da iniciação cristã dos adultos). O Concílio por sua vez permitiu que, "além dos elementos de iniciação fornecidos pela tradição cristã", fossem admitidos "em terras de missão estes outros elementos de iniciação cristã, cuja prática constatamos em cada povo, na medida em que possam ser adaptados ao rito cristão".

I.23.2 Espiritualidades e testemunho de fé

§2684 Na comunhão dos santos, desenvolveram-se, ao longo da história das Igrejas, diversas espiritualidades. O carisma pessoal de uma testemunha do Amor de Deus aos homens pôde ser transmitido, como "o espírito" de Elias a Eliseu" e a João Batista, para que alguns discípulos tenham parte nesse espirito. Há uma espiritualidade igualmente na confluência de outras correntes, litúrgicas e teológicas, atestando a inculturação da fé num meio humano e em sua história. As espiritualidades cristãs participam da tradição viva da oração e são guias indispensáveis para os fiéis, refletindo, em sua rica diversidade, a pura e única Luz do Espírito Santo.

O Espírito é de fato o lugar dos santos, e o santo é para o Espírito um lugar próprio, pois se oferece para habitar com Deus e é chamado seu templo.

I.23.3 Igreja e inculturação

§854 Por sua própria missão, "a Igreja caminha com a humanidade inteira. Experimenta com o mundo a mesma sorte terrena; é como o fermento e a alma da sociedade humana a ser renovada em Cristo e transformada na família de Deus". O esforço missionário exige, pois, a paciência. Começa pelo anúncio do Evangelho aos povos e aos grupos que ainda não crêem em Cristo; prossegue no estabelecimento de comunidades cristãs que sejam "sinais da presença de Deus no mundo" e na fundação de Igrejas locais; encaminha um processo de inculturação para encarnar o Evangelho nas culturas dos povos; e não deixará de conhecer também fracassos. "Quanto aos homens, sociedades e povos, apenas gradualmente os atinge e penetra, e assim os assume na plenitude católica.".

I.24 INDIFERENÇA RELIGIOSA

§1634 A diferença de confissão entre os cônjuges não constitui obstáculos insuperável para o casamento, desde que consigam pôr em comum o que cada um deles recebeu em sua comunidade e aprender um do outro o modo de viver sua fidelidade a Cristo. Mas nem por isso devem ser subestimadas as dificuldades dos casamentos mistos. Elas se devem ao fato de que a separação dos cristãos é uma questão ainda não resolvida. Os esposos correm o risco de sentir o drama da desunião dos cristãos no seio do próprio lar. A disparidade de culto pode agravar ainda mais essas dificuldades. As divergências concernentes à fé, à própria concepção do casamento, como também mentalidades religiosas diferentes, podem constituir uma fonte de tensões no casamento, principalmente no que tange à educação dos filhos. Uma tentação pode então apresentar-se: a indiferença religiosa.

§2094 Pode-se pecar de diversas maneiras contra o amor de Deus: a indiferença negligencia ou recusa a consideração da caridade divina, menospreza a iniciativa (de Deus em nos amar) e nega sua força. A ingratidão omite ou se recusa a reconhecer a caridade divina e a pagar amor com amor. A tibieza é uma hesitação ou uma negligência em responder ao amor divino, podendo implicar a recusa de se entregar ao dinamismo da caridade. A acídia ou preguiça espiritual chega a recusar até a alegria que vem de Deus e a ter horror ao bem divino. O ódio a Deus vem do orgulho. Opõe-se ao amor de Deus, cuja bondade nega, e atreve-se a maldizê-lo como aquele que proíbe os pecados e inflige as penas.

§2128 O agnosticismo pode, às vezes, conter certa busca de Deus, mas pode igualmente representar um indiferentismo, uma fuga da pergunta última sobre a existência e uma preguiça da consciência moral. Com muita freqüência o agnosticismo eqüivale a um ateísmo prático.

I.25 INDIGENTES cf. Pobres Porta dos infernos e Igreja

I.25.1 Caridade com os indigentes

§1586 No caso do Bispo, trata-se de uma graça de força ("O Espírito que constitui chefes": Oração de consagração do Bispo do rito latino): a graça de guiar e de defender com força e prudência sua Igreja como pai e pastor, com um amor gratuito por todos e uma predileção pelos pobres, doentes e necessitados. Esta graça o impele a anunciar o Evangelho a todos, a ser o modelo de seu rebanho, a precedê-lo no caminhada santificação, identificando-se na Eucaristia com Cristo sacerdote e vítima, sem medo de entregar a vida por suas ovelhas:

Pai, que conheceis os corações, concedei a vosso servo que escolhestes para o episcopado apascentar vosso santo rebanho e exercer irrepreensivelmente diante de vós o sumo sacerdócio, servindo-vos noite e dia; que ele tome incessantemente propício vosso olhar e ofereça os dons de vossa santa Igreja; que, em virtude do espírito do sumo sacerdócio, tenha o poder de perdoar os pecados segundo o vosso mandamento, distribua os cargos conforme vossa ordem e se desligue de todo vinculo em virtude do poder que destes aos apóstolos; que ele vos seja agradável por sua doçura e seu coração puro, oferecendo-vos um perfume agradável, por intermédio de vosso Filho, Jesus Cristo...

§1932 O dever de tomar-se o próximo do outro e servi-lo ativamente se torna ainda mais urgente quando este se acha mais carente, em qualquer setor que seja. "Todas as vezes que fizestes a um destes meus irmãos menores, a mim o fizestes" (Mt 25,40).

§2449 Já no Antigo Testamento, todas as medidas jurídicas (ano de perdão, proibição de empréstimo a juros e da manutenção de penhora, obrigação do dízimo, pagamento cotidiano ao trabalhador diarista, direito de rebusca nas vinhas e respiga nos campos) são uma resposta à exortação do Deuteronômio:

"Nunca deixará de haver pobres na terra; é por isso que eu te ordeno: abre a mão em favor de teu irmão que é humilhado e pobre em tua terra" (Dt 15,11). Jesus faz suas essas palavras:

"Sempre tereis pobres convosco; mas a mim nem sempre tereis" (Jo 12,8). Dessa forma, ele não deixa caducar a veemência dos oráculos antigos contra aqueles que "compram o fraco com prata e o indigente por um par de sandálias..." (Am 8,6), mas Ele nos convida a reconhecer sua presença nos pobres, que são seus irmãos:

No dia em que sua mãe a repreendeu por manter em casa pobres e doentes, Santa Rosa de Lima lhe replicou: "Quando servimos aos pobres e doentes, servimos a Jesus. Não nos devemos cansar de ajudar o próximo, porque neles é a Jesus que servimos".

I.26 INDISSOLUBILIDADE DO MATRIMÔNIO

§1610 A consciência moral concernente à unidade e à indissolubilidade do Matrimônio desenvolveu-se sob a pedagogia da lei antiga. A poligamia dos patriarcas e dos reis ainda não fora explicitamente rejeitada. Entretanto, a lei dada a Moisés visava proteger a mulher contra o arbítrio é a dominação pelo homem, apesar de também trazer, segundo a palavra do Senhor, os traços da "dureza do coração" do homem, em razão da qual Moisés permitiu o repúdio da mulher.

§1611 Examinando a aliança de Deus com Israel sob a imagem de um amor conjugal exclusivo e fiel, os profetas prepararam a consciência do povo eleito para uma compreensão mais profunda da unicidade e indissolubilidade do Matrimônio. Os livros de Rute e de Tobias dão testemunhos comoventes do elevado sentido do casamento, da fidelidade e da ternura dos esposos. A Tradição sempre viu no Cântico dos Cânticos uma expressão única do amor humano, visto que é reflexo do amor de Deus, amor "forte como a morte", que "as águas da torrente jamais poderão apagar" (Ct 8,6-7).

§1612 O CASAMENTO NO SENHOR A aliança nupcial entre Deus e seu povo Israel havia preparado a nova e eterna aliança na qual o Filho de Deus, encarnando-se e entregando sua vida, uniu-se de certa maneira com toda a humanidade salva por ele, preparando, assim, "as núpcias do Cordeiro (Cf Ap 19,7 e 9).

§1613 No limiar de sua vida pública, Jesus opera seu primeiro sinal a pedido de sua Mãe por ocasião de uma festa de casamento. A Igreja atribui grande importância à presença de Jesus nas núpcias de Caná. Vê nela a confirmação de que o casamento é uma realidade boa e o anúncio de que, daí em diante, ser ele um sinal eficaz da presença de Cristo.

§1614 A Celebração do Mistério Cristão Os Sete Sacramentos da igreja. Em sua pregação, Jesus ensinou sem equívoco o sentido o original da união do homem e da mulher, conforme quis o Criador desde o começo. A permissão de repudiar a própria mulher, concedida por Moisés, era uma concessão devida à dureza do coração; a união matrimonial do homem e da mulher é indissolúvel, pois Deus mesmo a ratificou: "O que Deus uniu, o homem não deve separar" (Mt 19,6).

§1615 É provável que esta insistência sem equívoco na indissolubilidade do vínculo matrimonial deixasse as pessoas perplexas e aparecesse como uma exigência irrealizável. Todavia, isso não quer dizer que Jesus tenha imposto um fardo impossível de carregar e pesado demais para os ombros dos esposos, mais pesado que a Lei de Moisés. Como Jesus veio para restabelecer ordem inicial da criação perturbada pelo pecado, ele mesmo dá a força e a graça para viver o casamento na nova dimensão do Reino de Deus. E seguindo a Cristo, renunciando a si mesmos e tomando cada um sua cruz que os esposos poderão "compreender" o sentido original do casamento e vivê-lo com a ajuda de Cristo. Esta graça do Matrimônio cristão é um fruto da Cruz de Cristo, fonte de toda vida cristã.

§1643 Os bens e as exigências do amor conjugal "O amor conjugal comporta uma totalidade na qual entram todos os componentes da pessoa apelo do corpo e do instinto, força do sentimento e da afetividade, aspiração do espírito e da vontade; O amor conjugal dirige-se a uma unidade profundamente pessoal, aquela que, para além da união numa só carne, não conduz senão a um só coração e a uma só alma; ele exige a indissolubilidade e a fidelidade da doação recíproca definitiva e abre-se à fecundidade. Numa palavra, trata-se das características normais de todo amor conjugal natural, mas com um significado novo que não só as purifica e as consolida, mas eleva-as, a ponto de torná-las a expressão dos valores propriamente cristãos."

§1644 A UNIDADE E A INDISSOLUBILIDADE DO MATRIMÔNIO O amor dos esposos exige, por sua própria natureza, a unidade e a indissolubilidade da comunidade de pessoas que engloba toda a sua vida: "De modo que já não são dois, mas uma só carne" (Mt 19,6). "Eles são chamados a crescer continuamente nesta comunhão por meio da fidelidade cotidiana à promessa matrimonial do dom total recíproco." Esta comunhão humana é confirmada, purificada e aperfeiçoada pela comunhão em Jesus Cristo, concedida pelo sacramento do Matrimônio . E aprofundada pela vida da fé comum e pela Eucaristia recebida pelos dois.

§1645 "A unidade do Matrimônio é também claramente confirmada pelo Senhor mediante a igual dignidade do homem e da mulher como pessoas, a qual deve ser reconhecida no amor mútuo e perfeito." A poligamia é contrária a essa igual dignidade e ao amor conjugal, que é único e exclusivo.

§1647 O motivo mais profundo se encontra na fidelidade de Deus à sua aliança, de Cristo à sua Igreja. Pelo sacramento do Matrimônio, os esposos se habilitam a representar esta fidelidade e a testemunhá-la. Pelo sacramento, a indissolubilidade de casamento recebe um novo e mais profundo sentido.

§2364 A FIDELIDADE CONJUGAL O casal de cônjuges forma "uma íntima comunhão de vida e de amor que o Criador fundou e dotou com suas leis. Ela é instaurada pelo pacto conjugal, ou seja, o consentimento pessoal irrevogável". Os dois se doam definitiva e totalmente um ao outro. Não são mais dois, mas formam doravante uma só carne. A aliança contraída livremente pelos esposos lhes impõe a obrigação de a manter una e indissolúvel. "O que Deus uniu, o homem não separe" (Mc 10,9).

I.27 INDIVIDUALISMO

§2425 A Igreja tem rejeitado as ideologias totalitárias e atéias associadas, nos tempos modernos, ao "comunismo" ou ao "socialismo". Além disso, na prática do "capitalismo", ela recusou o individualismo e o primado absoluto da lei do mercado sobre o trabalho humano. A regulamentação da economia exclusivamente por meio planejamento centralizado perverte na base os vínculos sociais; sua regulamentação unicamente pela lei do mercado vai contra a justiça social, "pois há muitas necessidades humanas que não podem atendidas pelo mercado". É preciso preconizar uma regulamentação racional do mercado e das iniciativas econômicas, de acordo com uma justa hierarquia de valores e em vista do bem comum.

§2792 Enfim, se rezamos verdadeiramente ao "Nosso Pai", saímos do individualismo, pois o Amor que acolhemos nos liberta (do individualismo). O "nosso" do início da Oração do Senhor, como o "nós" dos quatro últimos pedidos, não exclui ninguém. Para que seja dito em verdade, nossas divisões e oposições devem ser superadas..

I.28 ÍNDOLE DO HOMEM

§1264 No batizado, porém, certas conseqüências temporais do pecado permanecem, tais como os sofrimentos, a doença, a morte ou as fragilidades inerentes à vida, como as fraquezas de caráter etc., assim como a propensão ao pecado, que a Tradição chama de concupiscência ou, metaforicamente, o "incentivo do pecado" (fomes peccati"): "Deixada para os nossos combates, a concupiscência não é capaz de prejudicar aqueles que, não consentindo nela, resistem com coragem pela graça de Cristo. Mais ainda: 'um atleta não recebe a coroa se não lutou segundo as regras' (2Tm 2,5).

§1810 AS VIRTUDES E A GRAÇA As virtudes humanas adquiridas pela educação, por atos deliberados e por uma perseverança sempre retomada com esforço são purificadas e elevadas pela graça divina. Com o auxílio de Deus, forjam o caráter e facilitam a prática do bem. O homem virtuoso sente-se feliz em praticá-las.

I.36 INGRATIDÃO COM DEUS

§2094 Pode-se pecar de diversas maneiras contra o amor de Deus: a indiferença negligencia ou recusa a consideração da caridade divina, menospreza a iniciativa (de Deus em nos amar) e nega sua força. A ingratidão omite ou se recusa a reconhecer a caridade divina e a pagar amor com amor. A tibieza é uma hesitação ou uma negligência em responder ao amor divino, podendo implicar a recusa de se entregar ao dinamismo da caridade. A acídia ou preguiça espiritual chega a recusar até a alegria que vem de Deus e a ter horror ao bem divino. O ódio a Deus vem do orgulho. Opõe-se ao amor de Deus, cuja bondade nega, e atreve-se a maldizê-lo como aquele que proíbe os pecados e inflige as penas.

I.39 INIQÜIDADE

I.39.1 Mistério da iniqüidade

§385 Deus é infinitamente bom e todas as suas obras são boas. Todavia, ninguém escapa à experiência do sofrimento, dos males existentes na natureza que aparecem ligados às limitações próprias das criaturas e, sobretudo, à questão do mal moral. De onde vem o mal? "Eu perguntava de onde vem o mal e não encontrava saída", diz Santo Agostinho, e sua própria busca sofrida não encontrará saída, a não ser em sua conversão ao Deus vivo. Pois "o mistério da iniquidade" (2 Ts 2,7) só se explica à luz do "Mistério da piedade". A revelação do amor divino em Cristo manifestou ao mesmo tempo a extensão do mal e a superabundância da graça. Precisamos, pois, abordar a questão da origem do mal fixando o olhar de nossa fé naquele que, e só Ele, é o Vencedor do mal.

I.43 INSTINTO EVANGÉLICO

§1676 Há necessidade de um discernimento pastoral para sustentar e apoiar a religiosidade popular e, se for o caso, para purificar e retificar o sentido religioso que embasa essas devoções e para fazê-las progredir no conhecimento do mistério de Cristo (cf. CT 54). Sua prática está sujeita ao cuidado e julgamento dos bispos e às normas gerais da Igreja.

A religiosidade do povo, em seu núcleo, é um acervo de valores que responde com sabedoria cristã às grandes incógnitas da existência. A sabedoria popular católica tem uma capacidade de síntese vital; engloba criativamente o divino e o humano, Cristo é Maria, espírito e corpo, comunhão e instituição, pessoa e comunidade, fé e pátria, inteligência e afeto. Esta sabedoria é um humanismo cristão que afirma radicalmente a dignidade de toda pessoa como filho de Deus, estabelece uma fraternidade fundamental, ensina a encontrar a natureza e a compreender o trabalho e proporciona as razões para a alegria e o humor, mesmo em meio a uma vida muito dura. Essa sabedoria é também para o povo um princípio de discernimento, um instinto evangélico pelo qual capta espontaneamente quando se serve na Igreja ao Evangelho e quando ele é esvaziado e asfixiado com outros interesses.

§1679 Além da liturgia, a vida cristã se nutre de formas variadas da piedade popular, enraizadas em suas diferentes culturas. Velando para esclarecê-las à luz da fé, a Igreja favorece as formas de religiosidade popular que exprimem um instinto evangélico uma sabedoria humana e que enriquecem a vida cristã.

I.45 INSTITUTOS SECULARES cf. vida consagrada.

§928 Instituto secular é um instituto de vida consagrada no qual os fiéis, vivendo no mundo, tendem à perfeição da caridade e procuram cooperar para a santificação do mundo, principalmente a partir de dentro

§929 "Por urna "vida perfeita [= perfeitamente] e inteiramente consagrada a [esta] santificação", os membros desses institutos participam da tarefa de evangelização da Igreja, "no mundo e partir do mundo", onde sua presença age "à guisa de um fermento". Seu "testemunho de vida cristã" visa "organizar as coisas temporais de acordo com Deus e impregnar o mundo com a força do Evangelho". Eles assumem por vínculos sagrados os conselhos evangélicos e mantêm entre si a comunhão e a fraternidade próprias de seu "modo de vida secular".

I.51 INTERIORIDADE

I.51.1 Exigência de interioridade

§1779 É importante que cada qual esteja bastante presente a si mesmo para ouvir e seguir a voz de sua consciência. Esta exigência de interioridade é muito necessária, pelo fato de a vida nos deixar freqüentemente em situações que nos afastam:

Volta à tua consciência, interroga-a... Voltai, irmãos, ao interior e em tudo o que fizerdes atentai para a testemunha, Deus.

I.58 IRRELIGIÃO

I.58.1 Condenação da irreligião

§2110 "Não terás outros deuses diante de mim" O primeiro mandamento proíbe prestar honra a outros afora o único Senhor que se revelou a seu povo. Proscreve a superstição e a irreligião. A superstição representa de certo modo um excesso perverso de religião; a irreligião é um vício oposto por deficiência à virtude da religião.

§2118 A IRRELIGIÃO O primeiro mandamento de Deus reprova os principais pecados de irreligião: a ação de tentar a Deus em palavras ou em atos, o sacrilégio e a simonia.

I.58.2 Pecado de irreligião

§2119 A ação de tentar a Deus consiste em pôr â prova, em palavras ou em atos, sua bondade e sua onipotência. Foi assim que Satanás quis conseguir que Jesus se atirasse do alto do templo e obrigasse Deus, desse modo, a agir. Jesus opõe-lhe a Palavra de Deus: "Não tentarás o Senhor teu Deus" (Dt 6,16). O desafio contido em tal "tentação de Deus" falta com o respeito e a confiança que devemos a nosso Criador e Senhor. Inclui sempre uma dúvida a respeito de seu amor, sua providência e seu poder.

§2120 O sacrilégio consiste em profanar ou tratar indignamente os sacramentos e as outras ações litúrgicas, bem como as pessoas, as coisas e os lugares consagrados a Deus. O sacrilégio é um pecado grave, sobretudo quando cometido contra a Eucaristia, pois neste sacramento o próprio Corpo de Cristo se nos torna substancialmente presente.

§2139 A ação de tentar a Deus, em palavras ou em atos, o sacrilégio, a simonia são pecados de irreligião proibidos pelo primeiro mandamento.

ÍCONE(S) VIDE Imagens sacras

I.1.1 Contemplação do ícone

§1162 "A beleza e a cor das imagens estimulam minha oração. É uma festa para os meus olhos, tanto quanto o espetáculo do campo estimula meu coração a dar glória a Deus." A contemplação dos ícones santos, associada à meditação da Palavra de Deus e ao canto dos hinos litúrgicos, entra na harmonia dos sinais da celebração para que o mistério celebrado se grave na memória do coração e se exprima em seguida na vida nova dos fiéis.

I.1.2 Culto dos ícones

§1159 AS ANTAS IMAGENS A imagem sacra, o ícone litúrgico, representa principalmente Cristo. Ela não pode representar o Deus invisível e incompreensível; é a encarnação do Filho de Deus que inaugurou uma nova "economia" das imagens:

Antigamente Deus, que não tem nem corpo nem aparência, não podia em absoluto ser representado por uma imagem. Mas agora que se mostrou na carne e viveu com os homens posso fazer uma imagem daquilo que vi de Deus. (...) Com o rosto descoberto, contemplamos a glória do Senhor.

§1192 As santas imagens, presentes em nossas igrejas e em nossas casas, destinam-se a despertar e a alimentar nossa fé no mistério de Cristo. Por meio do ícone de Cristo e de suas obras salvíficas, é a ele que adoramos. Mediante as santas imagens da santa mãe de Deus, dos anjos e dos santos, veneramos as pessoas nelas representadas.

§2131 Foi fundamentando-se no mistério do Verbo encarnado que (sétimo Concílio ecumênico, em Nicéia (em 787), justificou, contra os iconoclastas, o culto dos ícones: os de Cristo, mas também os da Mãe de Deus, dos anjos e de todos os santos. Ao se encarnar, o Filho de Deus inaugurou uma nova "economia" das imagens.

I.1.3 Significação do ícone

§1161 Todos os sinais da celebração litúrgica são relativos a Cristo: são-no também as imagens sacras da santa mãe de Deus e dos santos. Significam o Cristo que é glorificado neles. Manifestam "a nuvem de testemunhas" (Hb 12,1) que continuam a participar da salvação do mundo e às quais estamos unidos, sobretudo na celebração sacramental. Por meio de seus ícones, revela-se à nossa fé o homem criado "à imagem de Deus" e transfigurado "à sua semelhança", assim como os anjos, também recapitulados em Cristo:

Na trilha da doutrina divinamente inspirada de nossos santos Padres e da tradição da Igreja católica, que sabemos ser a tradição do Espírito Santo que habita nela, definimos com toda certeza e acerto que as veneráveis e santas imagens, bem como as representações da cruz preciosa e vivificante, sejam elas pintadas, de mosaico ou de qualquer outra matéria apropriada, devem ser colocadas nas santas igrejas de Deus, sobre os utensílios e as vestes sacras, sobre paredes e em quadros, nas casas e nos caminhos, tanto a imagem de Nosso Senhor, Deus e Salvador, Jesus Cristo, como a de Nossa Senhora, a puríssima e santíssima mãe de Deus, dos santos anjos, de todos os santos e dos justos.

I.1.4 Utilidade dos ícones

§2705 A meditação A meditação é sobretudo uma procura. O espírito procura compreender o porquê e o como da vida cristã, a fim de aderir e responder ao que o Senhor pede. Para tanto, é indispensável uma atenção difícil de ser disciplinada. Geralmente, utiliza-se um livro, e os cristãos dispõem de muitos: as Sagradas Escrituras, especialmente o Evangelho, as imagens sacras, os textos litúrgicos do dia ou do tempo, os escritos dos Padres espirituais, as obras de espiritualidade, o grande livro da criação e o da história, a página do "Hoje" de Deus.